Os novos catecismos e as novas linguagens para o processo de iniciação cristã estiveram no centro da reflexão que pautou as Jornadas Nacionais de Catequistas. A necessidade de formação e o cuidado com a iniciação cristã foram pontos que, recentemente, Bento XVI pediu aos Bispos portugueses, para darem maior destaque. As novas linguagens e o ajuste a uma realidade em constante mudança foram temas imprescindíveis que não passam despercebidos ao clero nem a D. Anacleto Oliveira, Bispo auxiliar de Lisboa, que recorda o desafio lançado pelo Papa, na visita Ad limina. A revisão do processo de iniciação cristã vai no sentido de “contribuir para a formação de verdadeiros cristãos e fidelizar os catequizandos, depois de um processo de 10 anos de catequese e na sua condição de membros da Igreja”.

D. Anacleto não esconde que genericamente, o que se sente a nível nacional o abandono da prática religiosa de muitos jovens quando terminam o itinerário de iniciação cristã - alguns não a têm mesmo no final dos anos nesse caminho. Este é um alerta que “nos preocupa”, mas aponta que não deve ser generalizado pois “conhecemos experiências positivas e temos referência de comunidades onde isto se concretiza”.

A preocupação central na revisão dos catecismos foi “fazer dos encontros de catequese “verdadeiras vivências de fé”, explica o Bispo auxiliar. Partindo da experiência humana de vida dos adolescentes, da sociedade, do meio ambiente, das ansiedades e necessidades, “quisemos dar uma resposta a essas questões à luz da fé, para que as experiências sejam alimentadas pela Palavra de Deus, como uma proposta de interiorização e reflexão”. No final pretende-se que “este processo culmine num verdadeiro acto de fé, expresso na oração”, com incidências na vida, “resultando no compromisso de vida”. No final de cada tema, faz-se uma síntese para que “possam memorizar e servir para a o resto da vida”.

Os novos catecismos estão já a ser experimentados nas várias paróquias. Disso mesmo deram conta à reportagem do ECCLESIA os vários catequistas presentes nas Jornadas Nacionais sobre «Novos Catecismos - Nova Catequese - Novos Catequistas - "Para que acreditem e tenham vida"». A necessidade de constante formação para os catequistas foi apontada por alguns que já experimentaram as novas metodologias. As exigências são novas, mas para ambas as partes – catequistas e catequizando.

Maria Flores, catequista em Santiago do Cacém, aponta como principal benefício a maior ligação entre a família e a catequese. “Não estamos isolados da família. Há uma união, pois é essencial o contributo familiar na caminhada da fé”, explica.

Rui Silva da Cruz, da diocese de Coimbra, aponta que este processo de renovação da catequese era “necessário e urgente”, para que se retomassem os efeitos que a formação “não tem produzido nos últimos anos”.

Zita Varandas, da diocese de Vila Real, vê, nos novos catecismos, uma apresentação “mais explícita”. A renovação “é sempre importante”, para acompanhar “as mudanças da sociedade”. Da parte dos seus catequizandos do 10º ano, dá conta de uma maior adesão aos novos materiais.

O Pe. Hélder Fonseca, presente também nas jornadas para abordar o tema “Catequese e Transmissão na fé” aponta que esta formação é apenas “uma etapa na transmissão da fé”, não é a única, mas é fundamental.

Na sua exposição, o sacerdote reflectiu nas dificuldades e desafios que se colocam à transmissão da fé. A transmissão da fé, relacionada intimamente com a experiência pessoal de cada pessoa, concebida a partir da relação que tem unicamente com Deus e que, assim sendo apresenta diferentes especificidades mais difíceis de controlar. A transmissão de algo herdado encontra maiores barreiras, pois “o que vale actualmente é a novidade e não o que foi herdado”, aponta. Os destinatários, por sua vez, talvez não estejam preparados para “a oferta demasiado densa para a intensidade do momento que querem viver”.

O Pe. Hélder Fonseca recorda palavras de Bento XVI na Encíclica Deus Caritas Est quando afirmou que “o anúncio ou a transmissão da fé não surgem por uma questão ética ou ideológica, mas pelo contacto e comunhão com Jesus Cristo”. O sacerdote denuncia que a crítica que a comunicação social entendeu como tal, referindo-se às palavras do Papa aos bispos portugueses, afirma ser positiva “pois entende a iniciação cristã como uma necessidade e que não está restrita à celebração dos sacramentos, como até há algum tempo se via”.

Esta é uma crítica interna que vai de encontro à preocupação já manifestada. Perante os dados anunciados “devemos questionar os nossos métodos”. O Pe. Hélder Fonseca volta a frisar que a catequese é uma etapa nesse meio, mas só por si “é incapaz”.

Cristina Sá Carvalho, do departamento de Formação do Secretariado Nacional de Educação Cristã reflecte que a revisão da iniciação cristão é um processo que deve incluir as famílias, “pôr em cheque a evangelização na família”, pois indica “as famílias portuguesas precisam de ajuda”.

A responsável recorda as palavras do Papa, referindo-se à necessidade de rever processos de iniciação cristã, como uma “chamada de atenção mas com optimismo”. Se o mundo se altera constantemente “precisamos de saber trabalhar com criatividade”, aponta. Por isso, recorda as palavras do Papa como um estímulo.

Cristina Sá Carvalho denuncia a necessidade de trabalhar melhor o processo de desenvolvimento da fé das crianças, por isso aponta que para além dos 10 anos de catequese se deveria ter “mais três anos” correspondentes aos anos que antecedem a entrada na escola, onde as crianças “já mostram um desejo de Deus que não deveremos perder”.

Sobre os novos espaços de transmissão de fé, a responsável do departamento de formação admite que a paróquia continua a ser um sítio especial, mas há uma reflexão que se está a desenvolver “sobretudo nas grandes dioceses”, sobre os espaços que as pessoas procuram para celebrar a fé.

O facto de as comunidades de fé estarem a mudar “é um incentivo para encontrarmos outras linguagens”. A iniciação cristã propõe formar, em qualquer idade, pessoas bem estruturadas que possam viver uma vida normal na sociedade, mas “uma vida transformadora, de fé e esperança num mundo caótico, mas que pode recuperar”.

Os quatro volumes da adolescência estão já finalizados e a ser experimentados. Propostas que Cristina Carvalho indica “trazerem frescura”, irem ao encontro da “vocação do adolescente” e acrescenta ser uma proposta de catequese “mais ampla e profunda”. O primeiro ano está centrado num “despertar religioso”, uma questão que “sentíamos estar em falta”.

Os cinco volumes que faltam vão permitir a uma “educação sacramental mais profunda e mais vivida pela criança” – correspondentes ao segundo e terceiro anos. Na fase de pré adolescência, Cristina Carvalho aponta como prioridade a “estruturação do conhecimento da fé mas num sentido crítico”.

A linguagem foi um dos grandes pólos de atenção na preparação dos catecismos. As experiências estéticas, a variedade da linguagem tem um especial destaque e “ganham eco entre os catequizandos”. Sobre as metodologias, o núcleo central vai orientar a mensagem, mas são temas que podem ser abordados a partir dos problemas de hoje, pois, segundo Cristina Sá Carvalho, “o desafio do anúncio da fé é olhar para o mundo e para as dificuldades e transformá-las em oportunidades”.

fonte: Agência Ecclesia

publicado por catequesebarra às 01:10